Impressões botânicas - Origens



Acordo cedo. O azul do céu cintila, prometendo um lindo dia. Já estou ansiosa para sair de casa: hoje é dia de impressão botânica. A primeira tarefa, se é que podemos chamar de tarefa – porque para mim é um deleite – é recolher o material que vai ser nossa matriz para a impressão: as plantas! E não preciso ir muito longe – nestes dias de quarentena não podemos ir muito longe mesmo –, uma volta na quadra de casa já nos oferece tudo que precisamos. Recolho folhas caídas no chão – algumas secas e outras que acabaram de cair – e algumas sementes lançadas pelas árvores. Apanho as flores já caídas ou que estão quase murchas no pé. Colho ervas que nascem resistentes no meio-fio, e olha que elas são abundantes, e algumas folhas que enchem os arbustos e árvores quando reconheço que não farão falta à planta. E volto feliz para casa. Sei que todas as minhas impressões desse dia de outono ficarão registradas nos retalhos de tecido que já estão de molho no banho do mordente desde ontem a noite. As plantas se transformarão em impressões vivas da natureza.


Para além de expor os detalhes técnicos do processo da impressão botânica, essa postagem é uma tentativa de compartilhar um olhar, ao mesmo tempo simples, profundo e prazeroso, das plantas que nos rodeiam, e que na correria do dia a dia ficam invisíveis, mas coexistem com a nossa própria natureza.




Como tudo começou



Logo que comecei a me interessar pelo tingimento natural – pesquisava incansavelmente por tutoriais pela internet – e descobri a impressão botânica. Esta foto acima foi uma das minhas primeiras tentativas. Sobre um retalho de seda que já estava tingido, distribui pedaços da folha do chapéu-de-sol, folhas de eucalipto, hibisco seco, uma folha de goiaba, uma flor do camarão vermelho e gruminhos de polén. Por um lado o resultado foi decepcionante: "porque as folhas não ficam impressas com o contorno correto?", pensei. Por outro lado, fiquei tão fascinada pelas cores desse mix tão reduzido de plantas que intensifiquei minhas pesquisas.


Foi aí que encontrei a artista têxtil australiana India Flint. Seu trabalho é muito sensível e me tocou profundamente. A ela é atribuída a invenção da eco-print, como é conhecida a impressão botânica em inglês. Em seu livro "Eco Colour: botanical dyes for beautiful textiles" ela conta qual foi sua inspiração para a criação da técnica:


"Minha mãe também desempenhou um papel fundamental em nutrir aquilo que seria minha paixão, além de me instruir na arte da observação botânica e ilustração. Foi ela que ficou responsável, todos os anos, pela tradição da família de tingir os ovos para as celebrações da Páscoa. Na tradição da Letônia, ovos frescos de galinha são embrulhados em camadas de plantas, começando por pequeninas folhas de morango e outras bonitas ervas do jardim, e terminando com uma boa camada de cascas marrom-escuras de cebola. Esses ovos embrulhados são colocados numa panela com água, levados ao fogo, e fervidos por 10 minutos e deixados para esfriar. Desembrulhar cada ovo é sempre um deleite assim que os padrões delicados são revelados, cada um único. Experimentando com a tradição dos ovos tingidos, usando folhas de eucalipto sobre tecido levou-me à descoberta da eco-print em 1999." (tradução livre)

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