Cores do Japão – Jardim botânico de plantas tintórias




Qualquer tipo de jardim é encantador. Mas quando penso em jardins botânicos sempre sinto uma curiosidade especial. Como se além de fartar meus olhos com beleza, eu fosse descobrir os segredos das plantas. Imagine então um jardim botânico especializado em plantas tintórias. A sensação de desvendar os segredos das cores das plantas foi indescritível ao visitar o Jardim Botânico de Plantas Tintórias da cidade de Takasaki no Japão.


As plantas tintórias são espécies que são usadas há séculos para tingir tecidos e fibras. Em seu interior elas guardam substâncias especiais que reagem com os mordentes e se agarram nas fibras, colorindo os tecidos.


Na época, outono de 2017, não imaginava existir algo tão especializado em tingimento natural, dedicado ao conhecimento das plantas tintórias. Hoje sei que existem jardins parecidos com esse em outros países como Canadá e França.


Visitar o Jardim Botânico de Takasaki me trouxe uma visão histórica e mais abrangente sobre o tingimento natural. Eu pude perceber todo o ciclo da transformação das plantas em cores. Conheci a planta em seu habitat. Tingi com esta planta já transformada em tintura no workshop. E admirei peças incríveis tingidas inteiramente com plantas na Sala de Exposição. Nessa que é a terceira postagem da série Cores do Japão, quero dividir com você essa experiência. Vamos visitar juntos o Jardim Botânico?




Da colheita no jardim à arte de tingir com plantas


Vista do monte Kannonyama, parte do complexo do Jardim Botânico, onde podemos avistar a estátua sagrada Byakui Daikannon, representação do ser iluminado da compaixão.

Vista do monte Kannonyama, parte do complexo do Jardim Botânico, onde podemos avistar a estátua sagrada Byakui Daikannon, representação do ser iluminado da compaixão.



O Jardim Botânico de plantas tintórias é uma das atrações turísticas da cidade de Takasaki, localizada na província de Gunma bem no meio do Japão. Gunma foi o centro da produção da seda no Japão nas eras Edo e Meiji. Por sua localização, Takasaki se desenvolveu como importante ponto de entroncamente da região, com muitas estalagens e pousadas. O Jardim Botânico possui uma enorme e agradável área verde onde podemos avistar a estátua de Byakui Daikannon. Além do passeio ao ar livre, em seu complexo podemos visitar a Sala de Exposição e a estufa de plantas tintórias tropicais, e, finalmente vivenciar o tingimento natural nos workshops oferecidos.


Conhecer o Jardim Botânico de Takasaki foi uma experiência bem diferente das visitas a Hiroyuki Shindo e a escola Ars Shimura. Em ambas vivências anteriores – que já contei aqui no blog nesta série Cores do Japão – entrei em contato com artistas-artesões que usam o tingimento natural em seus processos artísticos. Um mundo um pouco mais próximo da minha própria abordagem.


Ao visitar o Jardim Botânico, pude ampliar minha visão para abarcar o lado técnico do processo de tingir com plantas. No Japão o tingimento natural é bem mais conhecido do que no Brasil. Existem vários pesquisadores especilizados nos estudos das plantas tintórias. E o Jardim Botânico é o resultado disso. Suas atividades são muitas e diversificadas para públicos bem diferentes. Desde palestras e grupos de estudos em tingimento avançado com pesquisadores como Dr. Kazuki Yamazaki até workshops para crianças. O foco educacional e de difusão do tingimento natural no país é muito claro.


Alguns workshops possibilitam que as pessoas colham as plantas tintórias no jardim e tinjam com elas uma peça têxtil, que ao meu ver é o principal encantamento quando entramos em contato com o tingimento natural pela primeira vez. Ver com os próprios olhos e experimentar com as próprias mãos, como as plantas podem se transformar em cores nos tecidos, é mágico.


Colhendo flores: workshop "Tingimento com flores de benibana (cártamo) para pais e filhos", 2019. Criançada tingindo: workshop "Tingimento com yabumao (Boehmeria japonica) para crianças", 2019. Camisetas vermelhas: workshop "Tingimento com akane (Rubia cordfolia) em camisetas de algodão", 2017. Imagens de workshops realizados pelo Jardim Botânico de Takasaki reproduzidas de seu site.




O caminho das plantas tintórias pela história do Japão



Já imaginou conhecer a história de um país através das plantas usadas no tingimento natural? No Japão o tingimento natural é levado tão a sério como valioso bem cultural que existem pesquisadores especializados em sua história. E ela está escrita pelas plantas através do "Caminho do tingimento natural japonês" no Jardim Botânico. A cronologia das plantas tintórias usadas em cada época da história foi o conceito básico da construção das alamedas do Jardim. Percorrendo este caminho, você conhece as principais plantas de onde as tinturas podem ser extraídas, diferentes métodos de tingimento usados através do tempo e aprende sobre as diferentes cores das épocas. Uma explicação detalhada e amostras das cores quando tingidas são exibidas em placas ao longo do caminho para cada planta.


O tingimento está intimamente relacionado com a roupa. Historicamente parece que a tecelagem no Japão começou na era Jomon (8.000–300 a.C.), e o tingimento natural, na era Yayoi (300 a.C.–250 d.C.). Mas foi na era Asuka que a cor passou a ter um significado de identidade, e a importância do tingimento aumentou. Por isso, o "Caminho do tingimento natural japonês" do Jardim Botânico começa nesta era e se divide em 4 (veja o itinerário no mapa acima):


Caminho da era Asuka-Nara (538-794)

Algumas plantas usadas nesta época são índigo/ai (Persicaria tinctoria), murasaki (Lithospermum erythrorhizon) e cártamo/benibana (Carthamus tinctorius), imagens nessa ordem.



Caminho da era Heian-Kamakura (794-1333)

Exemplos de plantas usadas nesta época são roseira-rugosa/hamanasu (Rosa rugosa), ume (Prunus mume) e kurara (Sophora flavescens), imagens nessa ordem.



Caminho da era Muronachi-Edo (1336-1868)

Algumas plantas usadas nesta época são ryobu (Clethra barbinervis), kobunagusa (Arthraxon hispidus) e romã/zakuro (Punica granatum), imagens nessa ordem.



Caminho dos Tempos Modernos (1868~)

Exemplos de plantas usadas nesta época são yusuraume (Prunus tormentosa), nêspera/biwa (Eriobotrya japonica) e cinamomo/sendan (Melia azedarach), imagens nessa ordem.



Infelizmente não falo japonês, mas sei que as muitas placas que vi ao longo do caminho contém preciosas informações. Elas identificam o nome e a espécie da planta tintória, a parte da planta utilizada no tingimento – folha, flor, casca ou raiz e sua amostra de cor. A mesma planta apresenta três amostras de cores dependendo dos diferentes mordentes utilizados. Tudo esta indicado lá, inclusive um nome especifíco para cada cor existente. Mordentes são substâncias que fixam a tintura nas fibras do tecido – para saber mais leia a postagem Plantas que Tingem - Macela. A seguir estão alguns exemplos das placas que vi por lá.



Edgeworthia chrysantha

Mitsumata


Gardenia jasminoides

Kuchinashi/Gardênia


Phellodendron amurense

Kihada